Começando com uma derrota.

Não sei se existe jeito certo ou a melhor forma de estrear alguma coisa. Por isso, eu vou começar aqui no Rio Creative com uma derrota. Se você também não é assim muito de ganhar, vem comigo olhar quem vem lá do lado oposto.

Para quem sentava no fundão da sala de aula, o lado oposto sempre foi território daqueles seres quietos, com seus cadernos supercompletos e notas azuis. Lá de trás era possível ver claramente o futuro tranquilo que os aguardava.

Sim, aquele nerd que sentava lá na frente e respondia a todas as perguntas do professor, assim como a sua vó beata responde as deixas do padre nas missas, venceu.

E não estou falando só pelo sucesso na carreira em uma multinacional ou no concurso público super-difícil-de-explicar, mas com um salário que faria você se arrepender de todas as piadinhas que fez dele.

O que eu quero dizer é que ele venceu, e não venceu sozinho. Todos os amigos dele venceram e, hoje, os Geeks dominam o mundo. Todos os mundos. Aliás, eles sempre estiveram focados nisso.

Você queria conquistar a bonitinha que sentava debaixo do ventilador. O nerd queira dominar o mundo. Seu amigo queria conquistar a professora de inglês. O nerd queria vencer o chefão para conquistar o mundo. A bonitinha que sentava debaixo do ventilador queria conquistar aquele garoto popular do colégio. O nerd só queria saber qual a melhor estratégia para dominar o mundo.

Pois bem, conseguiram.

Eu fiz questão de prestigiar minha derrota no evento Geek & Game Festival Rio.

Foi fantástico!

Acredite, os nerds casaram! E foram além, tiveram filhos!

E os filhos dos nerds não eram as únicas crianças ali. A impressão que dá é que toda criança, hoje, nasce Geek. Primeiro ela escolhe entre Marvel ou DC Comics, Nintendo ou XBox, paiN Gaming ou INTZ e, só depois, entre Fluminense, Vasco, Botafogo, Flamengo, Barcelona, Real Madrid…

Entre muitas palestras lotadas com influenciadores e youtubers dando receitas de como fazer um vídeo bombar e de como a fama não muda em nada a vida de uma pessoa, uma me chamou muito a atenção.

Os autores de fantasia Eduardo Spohr, Affonso Solano e Andre Gordirro (aqui deixo a vergonha de lado para dizer que eu não fazia ideia quem eram e ainda não conheço nada sobre as histórias que eles escrevem) falaram de algo fundamental na vida de todo mundo que trabalha com propaganda ou indústria criativa: referências.

Por mais incrível que pareça, hoje quem faz a cabeça de milhares de leitores viu os mesmos desenhos animados que eu. Viu os mesmo filmes que eu. Gostava dos mesmo quadrinhos que eu. Foi uma viagem aos anos 80 com Comandos em Ação, Herculóides, Thunder Cats, Caverna dos Dragão e muito mais. Tudo bem que no meu caso, entre um desenho e outro, tinha futebol, futebol de botão e bafo com figurinhas de jogador de futebol, além de bicicleta, skate e pique-alguma coisa quando a bola furava ou a vizinha não devolvia.

Eu perdi. Tu perdeste. Eles se perderam. Quando? Onde? Como?

Eu perdi. Tu perdeste. Eles se perderam. Quando? Onde? Como?

Com essa viagem no tempo, eles fizeram uma comparação bem interessante entre os desenhos e séries dessa época com as atuais. Essas que vieram com a internet cada vez mais de massa e suas milhões de fontes de informação e conteúdo.

Há quem diga, que em 2017, vamos nos transformar na geração Zettabyte. Isso significa 10 elevado a 21 bytes de conteúdo na rede. Uma boa parte desse conteúdo é destinado a debater, comentar, criticar e, principalmente, explicar as novas histórias dos desenhos animados, quadrinhos ou séries.

E aí sabe o que acontece? Perde a graça.

Desatar o nó de um desenho nos anos 80 significava criar uma teoria mirabolante e defender a tese na rua. Hoje, é mandar um e-mail para o estúdio.

Quando você não entendia o final do livro, em 89, tinha que obrigar um amigo seu a ler para te explicar. Hoje, é só entrar no fórum e encontrar a explicação que você mais gosta.

Hoje, a maioria das coisas já nasce explicada. Independente da plataforma ou do ambiente, a história vem mais do que início, meio e fim. Elas vêm com o antes e o depois prontos.

Assim, ninguém precisa perguntar quem é aquele personagem. De qual época ele vem? Qual a história dele? Tipo eu, quando via a galera de cosplay.

Aliás, eles estavam por todo lado. No começo, achei que estava em bloquinho de carnaval, mas rapidinho percebi que o ritmo ali era outro. Eles cantavam e tocavam a marcha de uma vitória triunfante.

E eu? Bom, eu dancei.